Digerindo palavras...
Em clima de virada de ano, resistir e reinventar-se é uma luta diária.
Tenho observado, de uma distância segura e silenciosa, o espetáculo das vitrines digitais. Enquanto o mundo se ocupa em encenar a leveza de verões perfeitos, livros à beira da piscina e cafés milimetricamente enquadrados, escolho o caminho inverso: a presença absoluta. Estive na piscina, sim. Mergulhei nas páginas do meu livro e no sabor do café, caminhei por boas livrarias. Mas não houve registro. Ainda assim, essa escolha carrega um peso. Em que momento a minha ausência tornou-se um débito emocional? Por que sinto essa urgência quase física de justificar que, embora invisível aos algoritmos, continuo existindo?
Minha mente é um motor que não arrefece. As notificações do Substack ecoam como cobranças de uma produtividade que a alma, exausta, ainda não consegue traduzir no teclado. Os parágrafos nascem prontos na cabeça, sólidos e urgentes, mas o corpo hesita diante da tela. Há uma pressão invisível pela exposição que me sufoca. Enquanto outros destilam fórmulas de otimismo e rituais de passagem, carrego a marca física do meu ofício: um roxo no pulso após seis horas ininterruptas de escrita em Solo. Um hematoma que ninguém viu. Um esforço que não foi postado. Preciso provar que estou ativa? Obviamente, não. Sigo.
O Natal passou e, com ele, veio o encontro com o tempo na casa da minha avó. Falávamos sobre Solo, sobre as seis histórias femininas que costuro ali e, especialmente, sobre Olívia, minha protagonista. Enquanto eu dava forma aos traumas e à coragem dela, buscava, em silêncio, as minhas próprias respostas. Quem era o meu pai? Estaria vivo? Como tudo aconteceu? Mas, diante da mesa posta e dos noventa e um anos da minha avó, a pergunta mudou de eixo e a verdade me atravessou como um golpe: minha existência foi fruto de uma violência. Saber quem ele é tornou-se irrelevante diante do abismo que se abriu. Por que o silêncio durou trinta e sete anos?
Essa revelação iluminou, de maneira cruel, as falhas na comunicação, os vazios no afeto e as noites em que perguntei ao nada por um nome que nunca veio. Senti vontade de apagar cada linha de Solo e recomeçar. Olívia, com todas as suas dores, pareceu pequena diante da urgência de expor a Deyse, de trocar o romance pela vida nua e crua. Pensei em abandonar a ficção para gritar a minha própria história, mas compreendo que isso seria um gesto egoísta com a obra. Olívia permanece e, através dela, busco o meu próprio reerguimento.
Há coragem em não escrever imediatamente. Em permitir-se sentir o impacto da queda. Este texto não busca o aplauso fácil nem as promessas de um ano novo radiante. Meu texto é realista, cru, fruto de uma autoescuta dolorosa. Solo deixou de ser um projeto literário para tornar-se terapia e manifesto de sobrevivência. Sou publicitária, amo a arte de criar e inventar, mas aqui a única ferramenta possível é a verdade.
Peço licença a quem atravessa esta última semana do ano com o coração leve e celebrações prontas. Peço licença com respeito, mas preciso passar. Carrego comigo a dor, o medo e, ainda assim, a esperança. Minha escrita não serve para alimentar filtros de perfeição; serve para atravessá-los com entrega. Para muitas de nós, escreve
r não é passatempo. É existência.
Em todos os ciclos, mantive-me em pé. Sustentei-me no estudo, na gestação, na separação e em cada recomeço, até hoje sigo sozinha sustentando a casa, o filho, gerando força diária. Este relato não é o manifesto de uma pessimista, uma mulher amarga, pelo contrário: é a prova da minha tentativa mais recente, mais forte, consciente e corajosa. Hoje, embora o corpo doa, a mente canse e o semblante se feche, sinto-me viva. Estou aqui, revendo cada linha para que carreguem a minha verdade e atravessem a reflexão de um ano difícil, mas repleto de movimento e conquistas. Sigo lutando, tentando, reinventando-me.
Encerro este ciclo com uma imagem recente da minha rede pessoal. Enquanto eu corria na esteira, chorando por dentro e tentando desatar os nós desses dias complexos, meu filho, Benjamin, aproximou-se. Trouxe-me água e um sorriso. Sem saber, devolveu-me a fé que faltava e a força necessária para seguir. Ele é o meu sol em um dia de verão. Estamos viajando, é calor, tudo parece fora de ordem, mas hoje ele me lembrou que é dentro que nos reconhecemos e precisamos nos acolher. Hoje, escolho me abraçar.
Desejo que a travessia para dois mil e vinte e seis seja feita de saúde, paz, abundância e, sobretudo, de respostas e ações. Que o novo ano seja o tempo da virada, trazendo dias melhores para todas nós.
Com ternura e honestidade, exposta e ferida, mas inteiramente entregue.
Obrigada filho, eu te amo!
Deyse Luiza Lima.


Que texto mais lindo! A felicidade em tempo integral não é uma condição do ser humano. Que os momentos mágicos, como esse com seu filho, superem (em muito!!!!) os difíceis. E que a superação dos difíceis te dê asas para escrever sua história - ou a da sua personagem, ou das duas.
Isso bate fundo.Tem coisa que a gente só consegue carregar em silêncio mesmo, longe de vitrine, longe de aplauso.Que bonito ver você escolhendo ficar viva, inteira, mesmo quando dói <3